Lucro bruto dos convênios médicos cresce 25% em 2013

Valor Online - Beth Koike - 26/05/2014

Após um 2012 com descasamento entre receita e despesa, as operadoras de planos médicos e odontológicos conseguiram bons reajustes de preço e controlaram seus custos no ano passado. O resultado foi um aumento de 25,28% no lucro bruto. Trata-se do melhor desempenho desde 2010 para o setor, que apurou receita de R$ 108 bilhões no ano passado.

"As operadoras fizeram uma revisão nos contratos empresariais e conseguiram uma melhor negociação. O aumento da receita foi bem maior do que o número de vidas", destacou André Longo, presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O faturamento das 922 operadoras de convênios médicos aumentou 16%, enquanto o número de usuários cresceu 4,59%.

Com isso, o ano passado terminou com 50,3 milhões de pessoas com planos de saúde. O aumento de 4,59% veio acima do projetado pelo mercado, que trabalhava com percentuais próximos ao verificado nos dois anos anteriores, que variaram de 2,96% a 3,61%. Havia uma expectativa menos otimista devido ao cenário macroeconômico, uma vez que quanto maior a geração de empregos formais, maior é o número de trabalhadores com o benefício do convênio médico. Em 2013, a quantidade de novas carteiras de trabalho assinadas no país recuou 14,1%, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

"A alta de 4,59% no número de vidas foi puxada pelo segmento corporativo, em especial pequenas e médias empresas que passaram a oferecer o plano de saúde aos seus empregados", disse o presidente da ANS. Na seguradora SulAmérica, por exemplo, a receita proveniente dos convênios médicos vendidos às pequenas e médias empresas avançou 25,4%. Já entre as grandes companhias, o percentual foi de 15%.

Além de conquistar mais clientes e aumentar o tíquete médio, as operadoras conseguiram que a variação da despesa fosse inferior à do faturamento. Uma das maiores queixas do setor era o descasamento entre receita e custos médicos. A sinistralidade, que mede a relação entre esses dois indicadores, fechou o ano passado em 83,7%, uma queda de 1,2 ponto percentual. Para efeito de comparação, entre 2011 e 2012, a sinistralidade aumentou 2,5 ponto percentual, causando uma queda no lucro bruto de 3,3% em 2012.

O presidente da ANS destacou que os dados de 2012 foram impactados negativamente porque várias seguradoras de saúde fizeram provisões assistenciais pontuais, que foram contabilizadas como despesa, o que fez a sinistralidade disparar para 90,1%. No ano passado, a taxa de sinistralidade das seguradoras caiu para 81,6%, patamar padrão do segmento.

Porém, o bom desempenho operacional não se refletiu necessariamente em lucro líquido maior para todas as operadoras. Isso porque há impactos de provisões, resultado financeiro e despesas administrativas. As duas maiores empresas do setor tiveram desempenhos distintos por conta de reservas obrigatórias e resultado financeiro. A Amil, com 6 milhões de usuários de planos de saúde e dental, apurou prejuízo de R$ 43,5 milhões no ano passado ante um lucro líquido de R$ 82,1 milhões em 2012. O resultado final da Amil foi influenciado pelas despesas financeiras e provisões que praticamente triplicaram. Já a Bradesco Saúde, que tem 4 milhões de beneficiários de seguro saúde, viu seu lucro líquido crescer 6,2% para R$ 636 milhões e a receita líquida avançar 23,7% para R$ 12 bilhões no ano passado.

"Quanto ao resultado final, o que se vê é que a maioria das grandes operadoras realizou lucro. Já as pequenas e médias não conseguem diluir despesas administrativas e outros custos", disse Longo. Entre os convênios médicos com mais de 100 mil usuários, as despesas administrativas equivalem a 23% da receita. Mas entre as pequenas operadoras, com até 20 mil clientes, essa despesa chega a representar metade do faturamento e entre as empresas de porte médio, esse percentual é de 38%.

Já entre as operadoras de planos odontológicos, o crescimento foi o menor nos últimos dez anos. Entretanto, as 346 empresas dentais reduziram as despesas com procedimentos odontológicos em 0,9% no ano passado. Dessa forma, o lucro bruto foi a R$ 1,3 bilhão, alta de 12,61% em relação a 2012.

A OdontoPrev, maior operadora dental com 6,1 milhões de clientes, fechou o ano passado com lucro líquido R$ 188 milhões, avanço de 29,2%. A receita líquida da companhia, cujo maior acionista é a Bradesco, subiu 12% para R$ 1 bilhão.

Dos 50,2 milhões de usuários de planos de saúde, 63% são do Sudeste, com destaque para São Paulo, onde há 19 milhões de pessoas com convênios. Essa concentração ocorre por conta do forte mercado de trabalho na praça paulista. Cerca de 65% dos planos médicos são empresariais, aqueles concedidos como benefício pelas empresas contratantes aos seus funcionários. Apenas 20% são individuais, segmento que vem encolhendo. As operadoras vem deixando de trabalhar com essa modalidade, já que os reajustes de preço são regulados pela ANS. Nos planos corporativos, vale a livre negociação entre empresas e operadoras.

As regiões Sul e Nordeste representam 13,5%, cada, do total de usuários de planos. Depois vêm Centro-Oeste e Norte, com fatias de 5,57% e 3,5%, respectivamente.


Grupo muda foco para atingir R$ 1,6 bi

Em um cenário de retração do setor sucroalcooleiro, a São Francisco Saúde, que nos últimos anos cresceu na esteira das usinas de açúcar, reviu sua estratégia.

O foco de expansão do grupo - dono de planos médico e dental, clínicas, hospitais e laboratórios - deixou de ser o polo sucroalcooleiro e a meta agora é conquistar clientes de outros segmentos nas regiões em que havia montado uma estrutura para atender aos trabalhadores das usinas. O grupo tem cerca de 30 unidades, entre centros médicos e escritórios no interior de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.

Nos últimos três anos, 46 usinas fecharam, segundo a Única, entidade que representa o setor.

"O número de usinas que atendemos não chegou a diminuir. Mas se o setor estivesse crescendo na mesma proporção de anos atrás, com certeza teríamos um número maior de vidas. Não queremos depender de um único setor, por isso estamos trabalhando com outros empregadores", disse Lício Cintra, superintendente da São Francisco. Atualmente, a rede atende 70 usinas, que respondem por 25% da base de clientes.

Com sede em Ribeirão Preto (SP), o São Francisco é um grupo com faturamento de R$ 845 milhões e 564 mil usuários de planos médico e dental. Com a nova estratégia, a empresa pretende dobrar a receita bruta para R$ 1,6 bilhão e chegar a 1 milhão de usuários em 2017.

"Esse crescimento será orgânico. Mapeamos algumas regiões que acreditamos ter potencial de expansão", disse Cintra. Entre as praças vislumbradas pelo executivo estão Araraquara e São Carlos (SP), Dourados e Campo Grande (MS), Rondonópolis (MT) e sul de Goiás. "Há neste grupo, cidades que não são polos de usinas, porque já vínhamos diversificando nossa atuação nos últimos dois anos", explicou.

A São Francisco também tem em seu radar duas aquisições que devem ser concluídas neste ano. De 2011 para cá, comprou três operadoras, com investimento total de R$ 20 milhões.

Fundado na década de 1950 como um hospital, o grupo São Francisco tem 350 mil usuários do convênio médico e 215 mil do plano odontológico. Do faturamento total do grupo, R$ 630 milhões vieram dos planos de saúde ne dental e da rede própria de clínicas e laboratórios. O lucro líquido foi de R$ 15,9 milhões no ano passado, contra R$ 5,5 milhões em 2012.

O faturamento do Hospital São Francisco, localizado em Ribeirão Preto e onde são realizados os procedimentos de alta complexidade, e de outros pequenos hospitais do grupo somou R$ 160 milhões em 2013.

Além disso, o grupo São Francisco é dono de uma empresa de resgate (ambulâncias) que atende cerca de 10 concessionárias de rodovias privatizadas. Esse braço de negócio, que é tocado de forma independente, teve receita de R$ 70 milhões em 2013.